O bebê está com cólica e alguém sugeriu Funchicórea. Vale a pena usar?
Quem convive com um bebê que chora por horas sabe o quanto esse momento pode ser angustiante. É comum que familiares, amigos ou até outras mães indiquem medicamentos que fizeram parte da infância de muitas gerações. Entre eles, um dos mais conhecidos é a Funchicórea para cólica do bebê.
Durante muitos anos, esse medicamento foi amplamente utilizado no Brasil com a promessa de aliviar as cólicas dos primeiros meses de vida. Ainda hoje, é frequente encontrar relatos de pessoas que afirmam que a Funchicórea “sempre funcionou”.
Mas será que essa percepção é confirmada pelas evidências científicas?
Pesquisas e decisões de órgãos reguladores passaram a analisar com mais rigor a eficácia e a segurança desse produto. Isso levou muitos pais a se perguntarem se a Funchicórea funciona para cólica do bebê e se seu uso continua sendo uma opção segura.
Neste artigo, você vai entender o que é a Funchicórea, o que dizem os estudos científicos disponíveis, quais foram as decisões da Anvisa sobre o medicamento e você deve saber antes de pensar em oferecer qualquer produto ao seu bebê.
Funchicórea para cólica do bebê funciona?
Até o momento, não existem estudos clínicos robustos realizados em bebês que comprovem que a Funchicórea seja eficaz para tratar cólicas infantis. As evidências disponíveis são limitadas e, em sua maior parte, baseiam-se em estudos laboratoriais, pesquisas em animais ou na utilização tradicional do produto ao longo de décadas.
Além disso, durante a análise regulatória realizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, um dos principais pontos discutidos foi justamente a ausência de estudos clínicos que demonstrassem, de forma consistente, a eficácia e a segurança da Funchicórea para o tratamento de cólicas em lactentes.
Isso não significa, necessariamente, que o medicamento não produza qualquer efeito. Significa que, até o momento, não há evidências científicas de alta qualidade suficientes para confirmar que ele realmente reduz as cólicas dos bebês.
O que é a Funchicórea?
A Funchicórea para a cólica do bebê é um medicamento fitoterápico tradicional brasileiro utilizado há mais de cinco décadas com a finalidade de aliviar desconfortos digestivos em bebês, especialmente as cólicas dos primeiros meses de vida.
Na formulação atualmente descrita pelo fabricante, o produto é composto por extratos de plantas medicinais tradicionalmente utilizadas para sintomas digestivos, entre elas:
- Ruibarbo (Rheum palmatum L.);
- Chicória (Cichorium intybus L.);
- Essência de funcho (Foeniculum vulgare);
- além de excipientes, como carbonato de magnésio e sacarina sódica.
Cada um desses componentes possui propriedades farmacológicas conhecidas. Entretanto, isso não significa que a combinação presente na Funchicórea tenha eficácia comprovada para tratar cólica em recém-nascidos, já que os estudos clínicos específicos nessa população inexistentes.
Durante minha atuação como enfermeira neonatologista, acompanhei muitas famílias em busca de uma solução rápida para aliviar o choro do bebê. Esse sentimento é completamente compreensível. No entanto, antes de utilizar qualquer medicamento ou fitoterápico, é importante conhecer as evidências disponíveis e conversar com o pediatra que acompanha a criança.

O que dizem as evidências científicas sobre a Funchicórea para a cólica do bebê?
Ao analisar a literatura científica disponível, um ponto chama atenção: os estudos existentes não foram realizados em bebês com cólica, mas principalmente em modelos experimentais.
Alguns estudos realizados em laboratório observaram que a Funchicórea ajudou a relaxar a musculatura do intestino e a estimular o funcionamento intestinal em animais, como camundongos, e em tecidos intestinais utilizados em pesquisas. Em teoria, esse efeito poderia contribuir para diminuir os espasmos intestinais, que costumam estar relacionados ao desconforto causado pela cólica.
É importante entender que um resultado positivo em pesquisas de laboratório não significa, necessariamente, que o medicamento funcione em bebês. Estudos realizados em animais ou apenas em células e tecidos ajudam os pesquisadores a entender como uma substância age no organismo, mas eles não são suficientes para comprovar que ela é eficaz e segura para recém-nascidos.
Para que um medicamento possa ser considerado eficaz para tratar a cólica infantil, ele precisa ser testado diretamente em bebês, por meio de pesquisas cuidadosamente planejadas e comparado a um placebo (uma substância sem efeito terapêutico). Esses estudos avaliam, por exemplo, se o bebê realmente chora menos, fica mais confortável e se o medicamento provoca algum efeito indesejado.
Até o momento, não foram encontrados estudos desse tipo com a Funchicórea em lactentes. Por isso, as evidências científicas atuais ainda não permitem afirmar que o medicamento seja eficaz para tratar a cólica do bebê.
O que aconteceu com a Funchicórea na Anvisa?
Em fevereiro de 2012, a Anvisa cancelou o registro da Funchicórea após concluir que o fabricante não havia apresentado evidências científicas suficientes para comprovar a eficácia e a segurança do medicamento para as indicações descritas em bula, entre elas o tratamento de cólicas e prisão de ventre em bebês.
É importante entender que essa decisão não ocorreu porque foi comprovado que o medicamento fazia mal aos bebês, mas porque os estudos disponíveis na época não demonstravam, de forma consistente, que ele era eficaz e seguro para essa finalidade.
O processo de cancelamento começou anos antes e passou por disputas judiciais, permitindo que o produto continuasse sendo comercializado durante esse período. Somente em 2012, após a queda da liminar que mantinha sua comercialização, a decisão passou a valer.
No ano seguinte, em 2013, após a análise de um recurso apresentado pela empresa fabricante, a Anvisa autorizou novamente a comercialização do produto, considerando a documentação apresentada e estabelecendo exigências regulatórias para sua fabricação.
É importante destacar que o retorno do produto ao mercado não significa que existam estudos clínicos robustos comprovando sua eficácia para cólica infantil. As limitações das evidências científicas permanecem e continuam sendo reconhecidas na literatura.
Por que ainda existem dúvidas sobre a eficácia da Funchicórea para a cólica do bebê?
É comum encontrar relatos de pais e avós dizendo que a Funchicórea “sempre funcionou”. Esses depoimentos fazem parte da experiência de muitas famílias brasileiras e ajudam a explicar por que o medicamento permaneceu popular por tantos anos.
Entretanto, na medicina baseada em evidências, relatos individuais não são suficientes para comprovar que um tratamento realmente funciona.
A cólica infantil costuma ser uma condição que melhora espontaneamente nos primeiros meses de vida.
Isso não significa que todas as famílias que perceberam melhora estejam equivocadas. Em muitos casos, a cólica apresenta variações naturais ao longo do dia e tende a melhorar com o amadurecimento do sistema digestivo do bebê. Por isso, é difícil atribuir essa melhora exclusivamente ao uso do medicamento sem estudos controlados.
A composição da Funchicórea é segura para bebês?
A Funchicórea é formada por diferentes componentes vegetais. Cada um deles possui características próprias, e a quantidade de evidências disponíveis varia bastante.
Não basta conhecer os possíveis efeitos de cada planta isoladamente. Também é necessário saber se a combinação dessas substâncias foi estudada especificamente em recém-nascidos e lactentes.
Até o momento, essa evidência ainda é limitada.
Nos próximos tópicos, vamos analisar separadamente os principais componentes da fórmula e entender o que a literatura científica mostra sobre cada um deles.

O que a ciência diz sobre os componentes da Funchicórea?
A fórmula da Funchicórea reúne diferentes extratos vegetais tradicionalmente utilizados para desconfortos digestivos. No entanto,vale destacar que a segurança de uma planta em adultos não pode ser automaticamente extrapolada para recém-nascidos, que possuem um organismo ainda imaturo e metabolizam medicamentos de maneira diferente.
Veja o que as evidências mostram sobre cada componente.
Chicória: existem estudos em bebês?
A chicória (Cichorium intybus L.) é uma planta bastante estudada por suas propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e imunomoduladoras. Em adultos, pesquisas investigaram seu uso em diferentes condições clínicas, mostrando resultados promissores em algumas situações.
Entretanto, quando o assunto é cólica do bebê, o cenário muda.
Até o momento, não existem estudos clínicos que tenham avaliado a chicória isoladamente em recém-nascidos ou lactentes com cólica, nem pesquisas capazes de confirmar sua segurança específica nessa faixa etária. Por isso, não é possível concluir que os benefícios observados em adultos também ocorram em bebês.
Ruibarbo: por que esse componente merece atenção?
O ruibarbo (Rheum palmatum L.) é conhecido principalmente por seu efeito laxante.
Segundo a Agência Europeia de Madicamentos preparações à base de ruibarbo estimulam a motilidade intestinal e alteram a absorção de água e eletrólitos, motivo pelo qual são tradicionalmente utilizadas para o tratamento da constipação em adultos.
No entanto, a mesma agência recomenda cautela em crianças pequenas. Entre os riscos descritos estão desidratação e possível toxicidade hepática quando utilizado de forma inadequada ou prolongada.
É importante destacar que essas recomendações não significam que a quantidade presente na Funchicórea cause esses efeitos, mas mostram que o ruibarbo não é uma substância considerada isenta de riscos, especialmente em populações vulneráveis como os lactentes.
Além disso, não foram encontrados estudos clínicos modernos avaliando o uso do ruibarbo em recém-nascidos com cólica, o que reforça a ausência de evidências sobre sua segurança nessa população.
Funcho: o componente com mais estudos para cólica infantil
Entre todos os ingredientes da Funchicórea, o funcho (Foeniculum vulgare), conhecido popularmente como erva-doce, é o que apresenta maior número de pesquisas relacionadas à cólica infantil.
Alguns ensaios clínicos publicados entre 2003 e 2005 observaram redução do tempo de choro em bebês que receberam preparações contendo óleo de semente de funcho ou combinações de funcho com outras plantas, quando comparados ao placebo.
Apesar desses resultados, existem limitações importantes.
Esses estudos são antigos, utilizaram formulações diferentes da Funchicórea e envolveram um número relativamente pequeno de participantes. Além disso, não permitem concluir que a Funchicórea funcione para cólica do bebê, já que o medicamento possui uma combinação própria de ingredientes.
Outro ponto importante é que relatórios recentes da Agência Europeia de Medicamentos destacam que alguns componentes do óleo essencial de funcho, como o estragol, ainda apresentam incertezas quanto à segurança em exposições repetidas, motivo pelo qual recomendam cautela, principalmente em crianças pequenas.
Sacarina: por que esse ingrediente também merece atenção?
A sacarina sódica é um adoçante artificial utilizado para melhorar o sabor da formulação.
Embora seja empregada há décadas em diferentes produtos, a Academia Americana de Pediatria destaca que os adoçantes não nutritivos ainda foram insuficientemente estudados em crianças, recomendando cautela quanto à sua exposição durante a infância.
Da mesma forma, recomendações nutricionais orientam que crianças menores de dois anos não recebam alimentos ou bebidas contendo açúcares adicionados ou adoçantes artificiais, salvo quando houver indicação clínica específica.
Isso não significa que a sacarina presente na Funchicórea cause danos comprovados aos bebês. O ponto principal é que não existem estudos suficientes demonstrando os efeitos dessa exposição em recém-nascidos, motivo pelo qual a prudência é recomendada.
Veja também: Influência Da Alimentação Materna Sobre A Cólica Do Bebê
O que podemos concluir sobre a composição da Funchicórea?
Ao analisar os componentes individualmente, percebe-se que alguns apresentam propriedades farmacológicas conhecidas e até resultados promissores em estudos experimentais ou em adultos.
No entanto, isso não é suficiente para afirmar que a Funchicórea seja eficaz ou segura para tratar cólicas em recém-nascidos.
Até o momento:
- não existem ensaios clínicos robustos com a Funchicórea em lactentes;
- os estudos disponíveis concentram-se em modelos experimentais, animais ou adultos;
- alguns componentes possuem recomendações de cautela por parte de agências regulatórias internacionais quando utilizados em crianças pequenas.
Esses fatores explicam por que a medicina baseada em evidências ainda considera insuficientes os dados disponíveis para recomendar o uso rotineiro do medicamento no tratamento da cólica infantil.
Então devo ou não dar Funchicórea ao meu bebê?
Depois de analisar as evidências científicas disponíveis, talvez você ainda esteja se perguntando: afinal, posso oferecer Funchicórea para meu bebê?
A resposta mais responsável, à luz do conhecimento científico atual, é: Opte por opções não medicamentosas para cuidar da cólica no bebê, uma vez que não existe medicação comprovada para tratar a cólica do bebê.
Atualmente, não existem estudos clínicos robustos que comprovem que a Funchicórea seja eficaz para tratar cólicas em lactentes, mas isso também não significa que o medicamento tenha sido comprovadamente ineficaz. O que existe é uma importante lacuna de evidências científicas.
Além disso, a própria cólica infantil representa um desafio para a pesquisa. Na maioria dos casos, trata-se de uma condição esperada em recém- nascidos e que tende a melhorar espontaneamente por volta dos três a quatro meses de vida.
Por isso, atualmente, as principais diretrizes pediátricas priorizam medidas de conforto e orientação aos pais, em vez do uso rotineiro de medicamentos para todos os bebês.
Quando a cólica pode não ser apenas cólica?
Embora a cólica seja muito frequente nos primeiros meses de vida, nem todo choro intenso deve ser atribuído a ela.
Procure avaliação médica se o bebê apresentar:
- febre;
- dificuldade para mamar;
- vômitos persistentes;
- sangue nas fezes;
- barriga muito distendida;
- perda de peso ou dificuldade para ganhar peso;
- sonolência excessiva;
- choro inconsolável por muitas horas associado a outros sinais de doença.
Esses sintomas podem indicar outras condições que precisam ser investigadas pelo pediatra.
Veja também: Cólica Em Bebê: O Que Fazer? – Entre Mães E Bebês

Mitos e verdades sobre a Funchicórea
| Mito | Verdade |
| Como a Funchicórea é usada há muitos anos, sua eficácia já está comprovada. | Não. O uso tradicional não substitui estudos clínicos de boa qualidade. Até o momento, faltam ensaios clínicos robustos em lactentes. |
| Existem estudos científicos mostrando que a Funchicórea reduz a cólica em bebês. | Não. Os estudos disponíveis concentram-se principalmente em modelos experimentais e animais, não em recém-nascidos. |
| A Anvisa proibiu a Funchicórea porque comprovou que ela fazia mal aos bebês. | Não. O cancelamento do registro ocorreu por ausência de comprovação adequada de eficácia e segurança para as indicações propostas. Posteriormente, após recurso, o produto voltou ao mercado. |
| Se um bebê melhorou usando Funchicórea, significa que ela funciona para todos. | Não. Relatos individuais não substituem estudos científicos controlados. |
| Antes de oferecer qualquer medicamento ao bebê, é importante conversar com o pediatra. | Sim. Cada bebê deve ser avaliado individualmente, principalmente nos primeiros meses de vida. |
Checklist: antes de oferecer qualquer medicamento para cólica
Antes de utilizar qualquer medicamento ou fitoterápico, pergunte-se:
☐ O pediatra confirmou que o bebê apresenta apenas cólica?
☐ Existem sinais de alerta que precisam ser investigados?
☐ Já tentei medidas não medicamentosas para aliviar o desconforto?
☐ Conheço as evidências científicas sobre esse produto?
☐ Li a bula e utilizei apenas conforme orientação profissional?
Perguntas frequentes
A Funchicórea pode ser usada em recém-nascidos?
O idel é que não seja utilizada. Atualmente, não existem estudos clínicos robustos que comprovem sua eficácia e segurança nessa população.
A Funchicórea tem álcool?
A composição pode variar conforme a formulação e o fabricante. Sempre consulte a bula atualizada antes de administrar qualquer medicamento ao bebê.
A Funchicórea contém sacarina?
Sim. A formulação descrita atualmente inclui sacarina sódica entre seus excipientes.
Existe algum medicamento comprovadamente eficaz para todas as cólicas dos bebês?
Não.
Até o momento, nenhum medicamento demonstrou eficácia consistente para todos os casos de cólica infantil. Por isso, as recomendações atuais priorizam orientação familiar, medidas de conforto e acompanhamento pediátrico quando necessário.
Ausência de estudos clinícos da funchicórea para cólica do bebê
A Funchicórea para cólica do bebê faz parte da história de muitas famílias brasileiras e continua sendo lembrada quando o assunto é aliviar o choro dos primeiros meses de vida.
Entretanto, ao analisar as evidências científicas disponíveis atualmente, observa-se que ainda faltam estudos clínicos robustos capazes de demonstrar sua eficácia e segurança em recém-nascidos e lactentes. Os dados existentes são baseados principalmente em pesquisas experimentais, estudos em animais e no uso tradicional do produto, o que não permite concluir que ele seja efetivo para todos os bebês.
Se o seu bebê apresenta cólicas, converse com o pediatra antes de oferecer qualquer medicamento. Em muitos casos, medidas simples de conforto, acolhimento e orientação adequada são suficientes para atravessar essa fase com mais tranquilidade.
Lembre-se: a cólica costuma ser passageira. Com informação baseada em evidências e acompanhamento profissional, esse período pode ser vivido com mais segurança.
Este conteúdo foi elaborado com base na prática de enfermagem neonatal e em evidências cientíticas. Porém, este conteúdo não dispensa a avaliação e orientação profissional individualizada.
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